Na Livre de Carbono, divisão de mudanças climáticas da Sustentar Ambiental, temos visto um movimento crescente de empresas migrando para o Mercado Livre de energia em busca de redução de custos. Mas, para quem faz inventário de emissões de GEE, essa decisão também pode ser uma oportunidade estratégica para mitigar as emissões de Escopo 2 – desde que seja feita em conformidade com o Programa Brasileiro GHG Protocol.

Antes de avançar, um ponto importante: aqui estamos falando do Mercado Livre de energia elétrica (Ambiente de Contratação Livre – ACL), e não da plataforma de e-commerce.

O que é Escopo 2 no GHG Protocol

No inventário de Gases de Efeito Estufa (GEE), o Escopo 2 corresponde às emissões associadas à energia elétrica adquirida e consumida pela organização.

O Programa Brasileiro GHG Protocol prevê duas formas principais de calcular essas emissões:

É nessa segunda abordagem que o Mercado Livre de energia ganha protagonismo para as empresas que atendemos.

Onde o Mercado Livre de energia entra no Escopo 2

Ao migrar para o ACL, a empresa passa a ter maior liberdade para negociar:

Na teoria, isso permite reduzir as emissões contabilizadas em Escopo 2, porque a organização pode:

Na prática, o que temos observado em clientes de diferentes portes é que essa redução só é reconhecida se a contratação atender aos critérios de qualidade estabelecidos no Guia de Escopo 2 do Programa Brasileiro GHG Protocol.

Critérios de qualidade do Escopo 2 e sua relação com o Mercado Livre

O Guia de Escopo 2 do Programa Brasileiro GHG Protocol define requisitos mínimos para que contratos e certificados de energia sejam considerados válidos na abordagem market-based. Entre os pontos mais relevantes que analisamos nos projetos da Livre de Carbono estão:

  1. Rastreabilidade
    A energia deve ser rastreável até a usina geradora. É preciso demonstrar a origem renovável (por exemplo, parque eólico X, usina solar Y, PCH Z).
  2. Exclusividade do atributo ambiental
    Os atributos de “energia renovável” não podem ser usados por mais de um consumidor ao mesmo tempo. Os certificados devem garantir ausência de dupla contagem.
  3. Correspondência temporal
    O período de geração da energia renovável atribuída ao consumidor deve ser coerente com o ano-base do inventário de GEE.
  4. Correspondência geográfica
    A energia precisa estar vinculada a uma região ou sistema elétrico compatível com o local de consumo.
  5. Transparência e verificabilidade
    Os instrumentos utilizados (contratos, RECs, I-RECs) precisam ser claros, auditáveis e alinhados a boas práticas internacionais, evitando greenwashing.

Quando esses critérios não são atendidos, a mitigação pretendida tende a ser desconsiderada, e prevalece apenas a abordagem location-based, com o fator médio do sistema elétrico.

Um problema comum que vemos na prática

Em vários diagnósticos que fazemos, encontramos o mesmo cenário:

As causas geralmente passam por:

Sem esse alinhamento, a empresa paga por um produto com apelo de “energia limpa”, mas não consegue transformar isso em números concretos de redução no inventário.

Comunicação: cuidado com o uso de “emissões zero”

Do ponto de vista da comunicação, expressões como “emissões zero” ou “energia 100% limpa” exigem cautela.

Mesmo quando a empresa aplica fator de emissão zero na abordagem market-based (com base em certificados válidos), o sistema elétrico como um todo continua emitindo GEE. O que muda é a forma de atribuir e contabilizar os atributos ambientais.

Por isso, nas análises e materiais que produzimos para nossos clientes, sempre recomendamos:

Conclusão: Mercado Livre, sim – mas com método

O Mercado Livre de energia é uma excelente oportunidade para alinhar estratégia de energia e estratégia climática. Porém, para que isso se converta em redução efetiva e defensável de emissões de Escopo 2, é fundamental seguir as diretrizes do Programa Brasileiro GHG Protocol e comprovar o atendimento aos critérios de qualidade.

No próximo post, mostramos um passo a passo prático de como usar a conta do Mercado Livre para mitigar o Escopo 2 na sua empresa.

Se você já está no Mercado Livre e quer entender se está aproveitando todo o potencial de mitigação, nossa equipe pode apoiar com um diagnóstico técnico.

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Na Livre de Carbono, acompanhamos de perto empresas que migraram para o Mercado Livre de energia (ACL) acreditando que isso “zeraria o Escopo 2”. Em muitos casos, a economia veio, mas a redução de emissões não apareceu nos relatórios como esperado – simplesmente porque o processo não foi estruturado de acordo com o Programa Brasileiro GHG Protocol.

Por isso, preparamos um roteiro prático para transformar a sua conta do Mercado Livre em uma ferramenta consistente de mitigação das emissões de Escopo 2.

  1. Diagnostique a situação atual da sua empresa

O primeiro passo é ter clareza sobre onde você está. Em nossos projetos, começamos sempre com perguntas como:

Uma forma simples de começar é montar uma planilha com:

Esse mapeamento é a base para qualquer estratégia de Escopo 2 market-based.

  1. Traga o tema “Escopo 2” para a mesa de negociação

Em muitas empresas que atendemos, a área de compras negociava energia exclusivamente com foco no menor custo por MWh. Quando incluímos na conversa a pauta de emissões de GEE, a lógica muda.

Algumas perguntas que recomendamos levar para a negociação:

Quando essas condições são discutidas desde o início, o contrato passa a ser não só uma compra de energia, mas também um instrumento de gestão de carbono.

  1. Garanta instrumentos de comprovação: RECs, I-RECs e documentação

Para usar a abordagem market-based de Escopo 2 com segurança técnica, não basta constar “energia renovável” no contrato. É necessário ter:

Na Livre de Carbono, uma etapa recorrente dos projetos é revisar esses documentos e identificar se eles são suficientes para sustentar o uso de fatores de emissão reduzidos na abordagem market-based.

  1. Verifique a aderência ao GHG Protocol antes de fechar o inventário

Com os documentos em mãos, é hora de cruzar as informações com as regras do Programa Brasileiro GHG Protocol:

Uma vez respondidas essas questões, você poderá:

Essa dupla visão é algo que frequentemente recomendamos aos nossos clientes, pois aumenta a transparência do inventário e a qualidade das informações para a alta gestão.

  1. Alinhe inventário, metas climáticas e comunicação

Depois de estruturar o uso do Mercado Livre na mitigação de Escopo 2, é importante amarrar três frentes:

  1. Metodologia do inventário de GEE
    Deixar claro, em notas metodológicas, como foram aplicadas as abordagens location-based e market-based.
  2. Metas climáticas e planos de descarbonização
    Em empresas com metas mais estruturadas (incluindo ou não SBTi), o uso de energia renovável no ACL costuma ser um dos pilares de redução de emissões de curto e médio prazo.
  3. Comunicação com o mercado
    Ajustar relatórios de sustentabilidade, apresentações para investidores e materiais comerciais para refletir, com equilíbrio, o uso de energia renovável rastreável e a redução de Escopo 2, evitando exageros como “zeramos todas as emissões” sem contexto.
  1. Onde a Livre de Carbono pode apoiar

Nossa equipe atua justamente na intersecção entre energia, inventário de GEE e estratégia climática. Na prática, podemos apoiar sua empresa em etapas como:

Em muitos projetos, o que fazemos é transformar a migração para o Mercado Livre – que já ocorreu por razões econômicas – em uma vantagem competitiva também do ponto de vista climático.

Conclusão

Usar o Mercado Livre de energia como ferramenta de mitigação do Escopo 2 é totalmente possível, mas exige método:

  1. Diagnosticar a situação atual;
  2. Levar Escopo 2 para a mesa de negociação;
  3. Garantir certificação e rastreabilidade da energia renovável;
  4. Verificar aderência ao GHG Protocol antes de fechar o inventário;
  5. Alinhar metodologia, metas e comunicação;
  6. Contar com apoio técnico quando necessário.

Se você quer avaliar se a sua conta do Mercado Livre está sendo plenamente aproveitada na gestão de emissões de GEE, fale com a nossa equipe.

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